7 pessoas LGBT+ contam como estão vivendo a pandemia

Leitura de 7 minutos

Para marcar o Dia Internacional Contra a LGBTfobia, 17 de maio, pedimos que pessoas LGBT+ no mundo todo contassem como a pandemia de COVID-19 vem afetando suas vidas. 

Recebemos dezenas de histórias. São relatos emocionantes, de solidão, solidariedade e esperança. Nesse post, selecionamos sete deles pra você conferir.

1) Mara, Itália

"A maior ansiedade não é ter que ficar em casa, mas ficar em uma casa que não amo, em uma cidade que não amo, com a sirene das ambulâncias gritando praticamente na porta. O pior de tudo é ter que dividir a casa com meus pais, nem tanto pela minha mãe, mas por ser quase insuportável ter que me sujeitar ao meu pai. Um pai que não me tem nenhum respeito e que faz questão de demonstrar isso sempre, toda vez que surge uma oportunidade."

2) David, Estados Unidos

"Meu marido William e eu vivemos 21 anos juntos, oito deles casados oficialmente. Ele estava muito preocupado com o vírus e com a possibilidade de pegá-lo. Um dia ele passou mal um pouco e ligou para o médico, que o aconselhou a fazer um teste de COVID-19. William foi ao pronto-socorro, fez o teste e esperou.

Ele estava muito preocupado com o vírus e com a possibilidade de se contagiar. David, Estados Unidos.

Depois de quatro dias, nenhum resultado dos exames; depois de oito dias, muito menos. Dia 7 de abril, terça-feira, começou como qualquer outro dia, mas, pouco depois das 13h, William teve um infarto e morreu. O médico legista precisou de 36 horas para conseguir o resultado dos exames e descobrir que William estava contaminado. A COVID-19, a diabete, a pressão alta e o estresse foram uma combinação mortal.

Agora estou sozinho e isolado, entre nossas duas famílias e os amigos, pessoas sem as quais eu não sei se conseguiria superar isso."

Apoie pessoas LGBT+ durante a pandemia. Clique para doar

3) Danillo, Brasil

"Sou transexual e minha esposa é lésbica. Moramos de forma improvisada no terraço da casa da minha mãe. Eu faço faculdade de administração e trabalho com educação financeira, ela estuda para o vestibular e trabalha com tatuagens e piercing.

Devido a meus conhecimentos, temos (graças a Deus) uma reserva financeira para emergências, tanto pessoal quanto do negócio dela, e montei um plano de contingência para manter a empresa faturando enquanto trabalho remotamente dando aulas online e mantenho meu salário acontecendo.

Financeiramente estamos bem, emocionalmente abalados. Nossas relações com nossas famílias são há muito tempo conturbadas por desfuncionalidades, preconceitos e desgastes. Costumamos dizer que 'sou eu por ela e ela por mim'. A oportunidade de morar 'de graça' cobra um alto preço de desgastes e brigas constantes, sendo compensatória APENAS na chance de poder pagar os custos com a faculdade, que nos mantem 'vivos' financeiramente e nos abre horizontes de crescimento futuro!

Além disso, minhas reservas de hormônio estão acabando e, como está em falta nas farmácias há mais de 2 anos, ainda vou ter que arriscar minha vida saindo de casa para comprá-lo clandestinamente, rezando pra estar disponível e agradecendo a Deus por ter o dinheiro necessário pra isso! Temos muitos problemas que casais heteronormativos nem sonham que existem, mas nos consideramos abençoados e privilegiados frente a diversos outros desgastes que sabemos existir no meio LGBTQ+!

Apesar de tudo, considero um verdadeiro ACHADO ter uma companheira tão dedicada e presente, ter um relacionamento tão amigo, sólido e sustentador! Nesse momento, estamos 'em paz' dentro da nossa unidade familiar (o casal), não brigamos, nos apoiamos emocionalmente e conseguimos às vezes rir e brincar como forma de aliviar nossas dores frente à pandemia!

Na nossa caminhada, desenvolvemos um nível de empatia tão alto quanto nossa resiliência e, por isso, experimentamos um misto de angústia pelas dores da guerra e gratidão pela maturidade em enxergar recursos subjetivos pra lidar com elas! Já somos sobreviventes, sabemos como é lutar pra existir, embora não seja confortável e deixe muitas sequelas, não estamos vivendo um cenário de todo novo pra gente.

Esperamos sobreviver a mais essa turbulência e estamos fazendo nosso melhor para respeitar à risca todas as orientações da OMS, saindo do isolamento apenas para comprar alimentos, uma vez por mês, higienizando as compras, usando máscaras, álcool em gel, não levando a mão ao rosto e trocando calçados ao retornar pra casa.

Nós nos esforçamos pra manter a produtividade em níveis seguros para manutenção de nossas estruturas laborais e planos pro futuro, mas muito conscientes das limitações emocionais que as dores da guerra nos apresentam! Lutar é nossa essência, é um lugar que aprendi a me demorar, criei resistência ao cansaço e ao esforço constante; só espero sairmos vivos dessa."

4) Anônima, México

"Eu sou lésbica e moro com minha família. As coisas estão indo bem por aqui, na verdade, mas vou confessar que é uma sobrecarga enorme pra mim ter que estudar demais (coisa que não faço há três semanas). Tem dias em que eu brigo com minha família, especialmente meu pai, sobre meu modo de pensar e sobre minha sexualidade, é claro. Ele faz comentários muito misóginos e homofóbicos. Eu já saí do armário, então ele faz esses comentários de propósito. Mas eu não deixo que isso estrague meus dias. Espero que todos estejam bem e que fiquem em casa. Sua amiga aqui manda boas vibrações."

Apoie pessoas LGBT+ durante a pandemia. Clique para doar

5) Justine, França

"Por causa da pandemia, estou longe da minha namorada há dois meses. A gente se fala sempre, mas sinto falta dela perto de mim.

Mas não estou desesperada. Eu sei que a verei quando o isolamento for suspenso. Além disso, ela pretende se declarar lésbica para os pais depois da quarentena. Ela precisa muito fazer isso, mas morre de medo. E eu sinto orgulho por ela ter coragem de ser ela mesma com a família.

Também estou planejando convidá-la para visitar meus pais depois do isolamento. Meus pais sabem que sou lésbica e me aceitam como sou. As pessoas não têm ideia de como é reconfortante ter o apoio dos pais quando você percebe que é gay. Estou feliz, sou livre para ser eu mesma e sei que um dia minha namorada também será.

Gostaria de enviar uma mensagem de esperança e positividade para os jovens LGBT que leram minha mensagem, e que talvez tenham acabado de se descobrir. Saiba que ser você mesmo é a coisa mais bonita que a vida pode lhe oferecer. É difícil amar neste mundo pra pessoas como nós. Mas eu garanto: vale a pena! E mesmo se você estiver com medo, mesmo que sinta solidão, prometo que um dia você será feliz."

6) Chris, México

"Meu nome é Chris e sou um garoto trans que ainda não se revelou para a família. Ir à escola era meu passaporte para a liberdade, pois eu podia expressar minha verdadeira identidade. Eu conseguia sorrir e parar de fingir, embora eu continuasse sendo atacado pelo mundo exterior, do lado de fora da segurança dos meus pensamentos. Mas eu não me importava, pois estava sendo eu mesmo.

Eu só quero que a quarentena termine e que eu sinta aquela liberdade de novo. Chris, México.

Depois que a quarentena foi anunciada, minha vida voltou a ser definida por manter as aparências, tendo que ouvir como eu deveria ser, parecer e me comportar, um retrocesso à solidão que eu sentia antes de ir para a escola. Uma pessoa me ajudou a me libertar, eu me encontrei quando a encontrei, e agora estou longe de todos eles.

Eu só quero que a quarentena acabe, só quero sentir essa liberdade de novo. Além disso, toda semana eles me davam um dinheiro para comer enquanto estivesse na escola. Eu estava economizando para comprar um binder, porque usar ataduras não é bom para a saúde. Acho que agora eles não me darão mais esse dinheiro. Meu binder vai ter que esperar mais do que eu imaginava."

7) Christopher, Reino Unido

"Eu estava pronto para me aposentar no final de março de 2020 pelo Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra. A ideia era me mudar para a Espanha no final de abril, mas meus planos foram por água abaixo e ainda não aconteceram. Faziam dois dias que eu havia saído do hospital quando me ligaram pedindo que eu voltasse para ajudar na situação do COVID-19, e dizendo que eu continuaria lá nos próximos meses.

Não tenho certeza de quando vou me mudar para a Espanha, se é que ainda vou me mudar, pois agora tenho que ver o que vai acontecer com o Brexit. Espero que eles sejam razoáveis, sensatos e estendam o prazo até o ano que vem, para que eu e todas as pessoas que planejaram se aposentar e morar num lugar mais quente possam seguir adiante. A vida nesse período tem sido muito absurda, e às vezes muito solitária.

Perdi colegas de trabalho que farão muita falta, mas jamais serão esquecidos. Espero que as pessoas se tratem com amor, bondade e respeito quando tudo isso acabar."

Apoie pessoas LGBT+ durante a pandemia. Clique para doar

O que significa não-binariedade pra você?

5 livros nacionais com temática LGBT+ que você deve ler

Dia da Pessoa Refugiada: iniciativas na América Latina acolhem pessoas LGBT+ refugiadas